Indice de Massa Corporal
Deve acentuar-se que o índice de massa corporal é apenas um instrumento e que nem sempre descreve correctamente a classificação do peso de uma criança ou de um adulto. No entanto, é um instrumento valioso para quantificar modificações ao longo do tempo e monitorar o resultado de intervenções.
Mas há outros parâmetros antropométricos e com eles pode obter-se formas alternativas de avaliar a gordura corporal e classificar individualmente as pessoas. Um desses parâmetros é o perímetro da cintura, considerando-se anormal um valor superior a 88 centímetros nas mulheres e 102 centímetros nos homens. Aliás, o perímetro da cintura, bem como a razão entre o perímetro da cintura e o perímetro da anca, é um marcador mais sensível do risco cardiovascular – por exemplo, o risco de sofrer um enfarte agudo do miocárdio -do que o índice de massa corporal.
Os resultados de um dos estudos realizados no âmbito da investigação de saúde na coorte de adultos da cidade do Porto (estudos EpiPorto e EpiCardis) para a mesma classe de índice de massa corporal o risco de enfarte aumenta linearmente com o tercil de razão perímetro da cinta sobre o perímetro da anca, tanto no sexo masculino como no feminino, e o efeito desta medida antropométrica é independente do papel desempenhado por factores como a educação, a alimentação ou os hábitos tabágicos.
Como deve ter-se reparado, não se falou em obesidade para classificar as crianças mas sim em excesso de peso ou risco de excesso de peso. A razão para esta escolha, que reúne um razoável consenso entre os especialistas desta área, prende-se com a necessidade de contrariar o aumento da discriminação associada com a obesidade, vista socialmente como uma desvantagem, bem como o estigma que também crescentemente acompanha o excesso de peso e levou a respostas como a mudança real dos tamanhos das roupas mantendo as mesmas designações: assim, um tamanho XL na Europa corresponde a medidas muito inferiores às que nos Estados Unidos da América levam essa classificação. Como já tivemos a oportunidade de lembrar, o índice de massa corporal é um indicador antropométrico, de natureza estatística, cujo interesse foi identificado há mais de 150 anos. No século dezanove desenvolveu-se um enorme interesse pela análise quantitativa dos fenómenos humanos e sociais e houve a preocupação de descrever as suas leis estatísticas. Alphonse Quetelet mostrou em 1844 que a frequência das dimensões humanas – altura e corpulência – se distribuía de acordo com uma típica curva em sino, que agora designamos como distribuição normal, de Gauss . Para Quetelet isto era um sinal de regularidade e ordem na natureza (como escreveu Philip Ball, em Criticai Mass, Arrow Books, 2004). Olhando para uma multidão, na rua, vê-se gente de todas as estaturas, parecendo à primeira vista que não há qualquer possibilidade de prever o tamanho das pessoas, dentro de óbvios limites, claro!
Mas recolhendo um número suficiente de observações, a curva normal surgirá e poderá calcular-se os parâmetros que descrevem a humanidade ou, pelo menos, amostras dela. Estas cogitações parecerão inusitadas mas na realidade ajudam a compreender o mundo que nos rodeia e até a nossa forma de pensar e agir. O homem médio, a que a estatística social de Quetelet dava dimensões físicas mas também morais e estéticas, rapidamente serviu o governo francês e provou-lhe utilidade no que então parecia ociosidade de físicos e astrónomos. Em 1844, Quetelet comparou a distribuição das alturas numa amostra da população geral com as observadas em 100 000 mancebos do exército francês e encontrou uma discrepância que o levou a concluir que cerca de 2000 homens tinham mentido na indicação da altura para ficar abaixo do mínimo exigido e assim escapar ao recrutamento.
O que é então a obesidade? Ou, se preferirmos, o que é ser normal, no que ao peso corporal ou à sua relação com a altura diz respeito? Vale a pena lembrar como se estabeleceram os pontos de corte para considerar um valor de colesterol normal e desse modo perceber a natureza algo arbitrária desses limites quando a natureza das “doenças” ou dos “factores de risco” é sobretudo estatística e resulta da análise da distribuição das frequências de variáveis contínuas. Assim, há mais de cinquenta anos, perante a observação do que era então reconhecido (tal qual agora a obesidade) como a epidemia crescente de casos de enfarte do miocárdio e da sua relação com a aterosclerose e os teores lipidíeos, procurou definir-se o que era um valor anormal de colesterol, para assim identificar pessoas em maior risco e estabelecer alvos para intervenção. Olhando para a distribuição de uma enorme quantidade de medições de colesterol, verificou-se que o valor a que correspondiam os sujeitos com as 5% mais altas concentrações sanguíneas era de 300 mg por decilitro. Pensou-se então que esta era a fasquia para definir anormalidade e sinalizar doença. Contudo, se apenas 5% das pessoas em geral apresentavam esse ou valor mais alto, também entre os indivíduos com doença cardíaca a proporção era pequena e portanto a capacidade de discriminar doença pouco relevante. A aproximação frequentista parecia pouco útil. Foi-se então ver, entre os que tinham doença e os que não tinham, quais eram os valores presentes e, melhor ainda, foi-se observar qual era o risco de desenvolver a doença de acordo com o valor inicial de colesterol. Pôde então concluir-se que valores acima de 240 mg por decilitro se associavam a um risco significativamente superior de doença. E essa passou a ser a nova meta quantitativa. Posteriormente, com a continuação dos estudos, pareceu até que valores mais baixos seriam mais saudáveis e toda uma campanha da industria farmacêutica tem apoiado o início de tratamentos em níveis inferiores. Compreende-se assim que a frequência, vista como rara, por si não pode ser critério de doença. A obesidade parece tender a ser a norma. Há assim que encontrar, em estudos prospectivos, quais e quantos os riscos reais que definam então a doença, isoladamente ou enquanto parte da síndrome metabólica.
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